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Edição #004
92% dos fundos ativos perdem para o índice. O que John Bogle sabia.
Os dados do SPIVA são claros: custo baixo e gestão passiva vencem a gestão ativa no longo prazo.
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Em 1975, John Bogle fundou a Vanguard e lançou o primeiro fundo indexado da história. A indústria financeira riu. Chamaram de "Bogle's Folly". Um fundo que simplesmente copiava o índice S&P 500, sem tentar batê-lo, parecia uma ideia absurda.
Cinquenta anos depois, a Vanguard administra mais de 8 trilhões de dólares. O fundo indexado se tornou o veículo de investimento mais bem-sucedido já criado. E a indústria que riu continua, em sua maioria, perdendo para o índice que Bogle decidiu simplesmente copiar.
A gestão ativa parte de uma premissa: um gestor profissional, com informação, equipe e tecnologia, pode selecionar ações e timing de mercado de forma a superar o retorno médio do mercado. Parece razoável. Na teoria, faz sentido.
Na prática, os dados dizem o oposto.
O SPIVA Scorecard, publicado anualmente pela S&P Dow Jones Indices, é o estudo mais abrangente sobre desempenho de fundos ativos versus índices. Os resultados são consistentes, ano após ano, em todos os mercados do mundo.
No Brasil, em um período de 15 anos, 92% dos fundos de ações ativos perderam para o Ibovespa. Não empataram. Perderam.
Nos Estados Unidos, o número é semelhante: 93% dos fundos ativos de large cap ficaram abaixo do S&P 500 em 20 anos.
Esses não são dados selecionados. São todos os fundos. Sobreviventes e liquidados. O SPIVA corrige o viés de sobrevivência, que é quando os fundos que vão mal são encerrados e desaparecem das estatísticas, fazendo a média dos sobreviventes parecer melhor do que realmente é.
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A vantagem dos fundos indexados se resume a três palavras: custo, custo e custo.
Um fundo de ações ativo no Brasil cobra, em média, 2% ao ano de taxa de administração, mais 20% de taxa de performance sobre o que exceder o benchmark. Um ETF indexado como o BOVA11 cobra 0,10% ao ano. Sem taxa de performance.
A diferença parece pequena. Não é. Em uma simulação de R$ 100.000 investidos durante 25 anos com retorno bruto de 12% ao ano:
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| Veículo |
Taxa |
Resultado em 25 anos |
| Fundo indexado |
0,10% a.a. |
R$ 1.690.000 |
| Fundo ativo |
2,0% a.a. |
R$ 1.083.000 |
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A diferença: R$ 607.000. Mais de meio milhão de reais. Apenas em taxas. E essa simulação assume que o fundo ativo empata com o índice em retorno bruto. Na realidade, como o SPIVA mostra, a maioria fica abaixo. O investidor paga mais e recebe menos.
John Bogle resumiu a lógica com uma clareza que é difícil de refutar: "O retorno bruto do mercado, menos os custos de investir, é igual ao retorno líquido que o investidor recebe. Quanto maior o custo, menor o retorno. A aritmética é implacável."
Não é filosofia. É matemática. Cada real que vai para taxa é um real que não compõe juros a seu favor. Os dados do SPIVA Brasil (2023) são reveladores:
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| Período |
% de fundos ativos que perderam |
| 1 ano |
62% |
| 3 anos |
78% |
| 5 anos |
84% |
| 10 anos |
89% |
| 15 anos |
92% |
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O padrão é claro: quanto maior o horizonte de tempo, maior a probabilidade de o fundo ativo perder para o índice. No curto prazo, existe aleatoriedade suficiente para que alguns gestores se destaquem. No longo prazo, os custos corroem qualquer vantagem temporária.
Existe um argumento comum a favor da gestão ativa: "Mas e se eu escolher os melhores gestores?" Os dados respondem essa pergunta também. Um estudo da S&P Dow Jones chamado Persistence Scorecard analisou se os fundos que ficaram no quartil superior em um período mantiveram a performance nos períodos seguintes.
O resultado: menos de 3% dos fundos que estavam no top 25% em um período de 5 anos continuaram no top 25% no período seguinte. A performance passada de um gestor ativo tem correlação estatisticamente insignificante com a performance futura.
Selecionar o gestor vencedor antecipadamente é tão provável quanto acertar na loteria. A diferença é que a loteria custa alguns reais. Um fundo ativo custa 2% ao ano durante décadas.
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Na prática, a aplicação desse princípio na carteira é direta. Para a parcela de renda variável brasileira, um ETF como o BOVA11 (que replica o Ibovespa) substitui qualquer fundo ativo de ações. Para a parcela internacional, o IVVB11 (que replica o S&P 500 em reais) faz o trabalho.
Para renda fixa, o Tesouro Direto é o equivalente do fundo indexado: custo baixo, exposição ao benchmark, sem intermediário tentando "gerar alpha". Suponha que sua carteira-alvo é:
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Carteira indexada de baixo custo
Custo total: ~0,15% a.a.
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Renda Variável (BOVA11)
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30%
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Renda Fixa (Tesouro IPCA+)
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30%
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Internacional (IVVB11)
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20%
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Ativos Reais (IFIX11)
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20%
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A mesma carteira em fundos ativos custaria 2% ao ano ou mais. Em 25 anos, a diferença de custo se acumula em um valor que compraria um apartamento.
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A carteira com fundos indexados é mais simples de montar, mais barata de manter e historicamente superior em retorno líquido. O rebalanceamento mensal funciona da mesma forma: você compara os percentuais com os alvos e ajusta.
A diferença é que, com custos de 0,10% ao ano em vez de 2%, cada rebalanceamento preserva mais do seu capital. Ao longo de 20 ou 30 anos, essa diferença se transforma em centenas de milhares de reais.
John Bogle morreu em 2019, aos 89 anos. Passou cinco décadas repetindo a mesma mensagem: custos importam, o índice vence, a simplicidade é o caminho. A indústria continuou vendendo complexidade. Os dados continuaram provando Bogle certo.
O investidor não precisa de um gestor brilhante. Não precisa de timing perfeito. Não precisa de informação privilegiada. Precisa de fundos indexados com custo baixo, alocação entre quatro classes de ativos e rebalanceamento periódico.
92% dos profissionais não conseguem vencer o índice em 15 anos. A probabilidade de que um investidor individual consiga é ainda menor. A boa notícia é que não precisa. O índice, acessível por centavos de taxa, já faz o trabalho.
A aritmética é implacável. E está do seu lado.
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P.S.: Na próxima edição: correlação entre ativos. O conceito que transforma quatro investimentos individuais em um sistema de proteção mútua. A matemática por trás da diversificação.
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Invista com princípios. — HC
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