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Alocação de Ativos, Edição #013
Alocação de Ativos

Edição #013

Diversificação É Correlação

Ter cinquenta ações do mesmo setor é ter uma aposta só. O que protege é como os ativos se movem entre si.

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Alocação de Ativos

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I

O Princípio

 

Existe uma crença confortável no mercado: quanto mais ativos você tem, mais diversificado você está. Compre vinte ações em vez de cinco, e o risco cai. Pareça espalhar dinheiro por muitos lugares dá a sensação de proteção.

A sensação engana. Se você compra vinte ações de bancos, você não tem vinte apostas. Você tem uma aposta no setor bancário, repetida vinte vezes. Quando os juros mudam, todas sobem ou caem juntas. O número de linhas no extrato não muda o que realmente importa.

 

Diversificação não é ter muitos ativos. É ter ativos que não se movem ao mesmo tempo, na mesma direção. A métrica que mede isso tem nome: correlação.

 

O que protege uma carteira não é a quantidade de coisas dentro dela. É o grau em que essas coisas reagem de forma diferente ao mesmo evento. Duas ações que sobem e caem em sincronia são, para fins de risco, o mesmo ativo. Dois ativos que se movem em direções opostas se protegem mutuamente.

 
 
⚖⚖⚖
 
 
II

A Matemática

 

A correlação é um número entre -1 e +1. Em +1, dois ativos se movem em perfeita sincronia. Em -1, um sobe exatamente quando o outro cai. Em zero, os movimentos são independentes, um não diz nada sobre o outro.

Harry Markowitz provou em 1952, no trabalho que lhe deu o Nobel, que o risco de uma carteira não é a média do risco dos ativos. Depende da correlação entre eles. Juntar um ativo de correlação baixa ou negativa reduz a volatilidade total mais do que custa em retorno esperado. É o raro almoço grátis das finanças.

No contexto brasileiro, as correlações abaixo são aproximadas e de longo prazo. Servem para desenhar a carteira, não para cravar previsão. O que importa é o sinal e a ordem de grandeza, não a segunda casa decimal.

A tabela abaixo mostra a correlação típica de longo prazo entre classes que o investidor brasileiro tem à mão, da perspectiva de uma carteira em reais:

Par de ativosCorrelação típicaEfeito na carteira
Ações BR x Ações BR (mesmo setor)+0,8Quase nenhuma diversificação
Ibovespa x S&P 500 (em reais)+0,6Diversificação parcial
Ações BR x Ouro+0,1Boa diversificação
Ações BR x Dólar-0,4Proteção em crise
Ações BR x Tesouro Selic0,0Independência

Quanto mais baixa a correlação entre dois ativos, mais a combinação dos dois reduz o risco sem matar o retorno. Esse é o motor da alocação.

 

Há uma armadilha conhecida. Em crises severas, as correlações entre ativos de risco disparam na direção de +1. Em 2008 e em março de 2020, ações de países, setores e tamanhos diferentes caíram quase todas juntas. Justamente quando a diversificação mais importava, ela encolheu. Os poucos ativos que seguraram foram os de correlação estruturalmente baixa ou negativa com risco: ouro, dólar e títulos públicos de qualidade.

 
 
⚖⚖⚖
 
 
III

A Aplicação

 

A lição prática é parar de contar ativos e começar a olhar como eles se relacionam. Antes de adicionar qualquer posição nova, faça uma pergunta: isso se move junto com o que eu já tenho, ou diferente?

Mapa de correlação da carteira

Como cada par se comporta

Renda variável BR, O motor de retorno, alta correlação interna

Núcleo

Bolsa internacional, Diversifica país e moeda, correlação média

Expansão

Ouro e dólar, Sobem quando o resto cai, correlação negativa

Seguro

Renda fixa de qualidade, Estabilidade, correlação perto de zero

Lastro
 

Regra de ouro: a próxima posição que mais diversifica não é a que tem o maior retorno esperado, é a que tem a menor correlação com o que você já carrega.

 

A carteira bem construída tem um motor de retorno (ações), um ou dois ativos que sobem quando o motor falha (ouro, dólar) e um lastro estável que segura o tranco (renda fixa de qualidade). Não por serem muitos, mas por reagirem diferente ao mesmo mundo.

 

Some um ativo que cai junto com tudo que você tem e você dobrou o risco com cara de prudência. Some um ativo que sobe quando o resto cai e você comprou um seguro que ainda rende.

 

E lembre que correlação não é fixa. Ela muda com o regime de juros, com a inflação e com o humor global. Por isso a diversificação não é uma decisão única, é uma manutenção. Revise as relações da sua carteira como quem revisa um motor: não quando quebra, mas antes.

 

Invista com princípios., HC

 

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