Princípio · Tributação

Quanto Rende o CDB na Prática: Nominal vs Real

Alocação de Ativos #032 · Leitura de 10 minutos

Estante de livros representando princípios atemporais de investimento

Existe uma alegria que a tela do banco vende barato: o saldo do CDB subiu dez por cento no ano, o verde brilha. Muita gente comemora sem perguntar o que importa: dez por cento em cima de um mundo que ficou quanto mais caro?

O retorno que aparece na tela é o nominal, o número bruto que o banco calcula. O retorno que sobra depois que a inflação come sua parte é o real, o que efetivamente engorda o seu poder de compra.

Os dois quase nunca são iguais, e é o real que diz se o patrimônio cresceu ou apenas acompanhou o custo de vida subindo junto.

O que são retorno nominal e retorno real

Retorno nominal é a taxa que o CDB promete e entrega, sem descontar nada. Se o banco anuncia 10% ao ano, é esse o número que aparece no extrato ao fim do período.

Retorno real é o que sobra depois de descontar a inflação do período. Se os preços em geral subiram 6% no mesmo ano, o ganho real não chega perto de 10%, porque parte daquele rendimento apenas repôs o que a inflação corroeu.

O cálculo correto usa divisão, e não subtração: divide-se (1 + retorno nominal) por (1 + inflação) e desconta-se 1 do resultado. A subtração direta serve como aproximação rápida, e exagera o ganho quando os números são grandes.

Render dez por cento com inflação de três é um bom ano. Render os mesmos dez por cento com inflação de doze significa perder poder de compra, mesmo com o número verde na tela.

Linha do tempo do CDB e da garantia que ele carrega

  1. 1965A Lei 4.728 reorganiza o mercado de capitais brasileiro e estrutura os títulos de captação bancária, o berço do certificado de depósito bancário.
  2. 1986A taxa dos depósitos interfinanceiros, o CDI, passa a ser apurada no mercado privado. Ela vira o referencial dos CDBs pós-fixados e caminha colada à Selic.
  3. 1995É criado o Fundo Garantidor de Créditos, associação privada mantida pelas próprias instituições financeiras, para cobrir depositantes em caso de quebra do banco.
  4. 2013A Resolução 4.222 do Conselho Monetário Nacional consolida o estatuto do FGC com cobertura de R$ 250 mil por CPF e por conglomerado financeiro.
  5. 2017Passa a valer o teto global de R$ 1 milhão por CPF a cada quatro anos, somando todas as instituições, com o limite de R$ 250 mil mantido por conglomerado.
  6. 2023A marcação a mercado diária passa a aparecer no extrato de renda fixa privada, o que tornou visível a oscilação de preço dos CDBs prefixados vendidos antes do vencimento.

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A mecânica real: o mesmo nominal, resultados opostos

Um CDB rendendo 10% ao ano parece sempre um bom negócio, até você colocar a inflação do período ao lado. O mesmo número nominal pode significar ganho real relevante ou perda de poder de compra, dependendo do que aconteceu com os preços.

Rende (nominal)InflaçãoGanho real
+10%3%+6,8%
+10%6%+3,8%
+10%10%0%
+10%12%-1,8%
+10%15%-4,3%
Ganho real do mesmo CDB de 10% nominal, por inflação
Inflação 3%+6,8%
Inflação 6%+3,8%
Inflação 10%0%
Inflação 12%-1,8%
Inflação 15%-4,3%

O mesmo contrato, com a mesma taxa nominal assinada no papel, entrega resultados opostos dependendo do cenário ao redor. O CDB não muda; muda o poder de compra do dinheiro ao redor dele.

O Imposto de Renda entra antes da inflação

Falta um desconto na tabela anterior, e ele vem primeiro: o Imposto de Renda incide sobre o rendimento nominal, pela tabela regressiva, de 22,5% até 180 dias a 15% acima de 720 dias. Nos 30 primeiros dias, ainda há IOF sobre o rendimento.

O ponto que dói é a base de cálculo. O imposto morde o ganho nominal inteiro, incluindo a parte que apenas repôs a inflação. Em cenário de preços em alta, o investidor paga imposto sobre um ganho que não existiu em poder de compra.

Etapa do cálculoExemplo com CDB de 10% e inflação de 6%
Rendimento nominal10%
Imposto de Renda de 15% sobre o nominalperto de 1,5 ponto
Rendimento nominal líquidoperto de 8,5%
Inflação do período6%
Ganho real líquido aproximadoperto de 2,4%

O número final costuma surpreender quem só olhou a taxa da vitrine: dos 10% anunciados, sobraram perto de 2,4% de aumento de poder de compra.

Os três formatos de CDB, e como cada um rende

Pós-fixado ao CDI. O formato mais comum. Rende um percentual do CDI acumulado, calculado dia útil a dia útil, com base em 252 dias úteis no ano. Se a Selic sobe, o rendimento sobe junto no dia seguinte, e o preço do papel quase não oscila.

Prefixado. Trava uma taxa nominal na contratação, por exemplo 12% ao ano. Entrega o combinado no vencimento e oscila de preço no meio do caminho, do mesmo jeito que um título público prefixado.

Indexado ao IPCA. Paga a inflação mais uma taxa real fixa. Protege poder de compra por definição, e carrega a mesma parcela prefixada embutida que faz o preço balançar antes do vencimento.

A liquidez é a segunda variável que muda tudo. Um CDB de liquidez diária permite resgate a qualquer momento, e paga menos. Um CDB com vencimento em três anos e sem liquidez paga mais, porque o banco sabe exatamente quando vai devolver o dinheiro.

FormatoComo rendeEncaixe típico
Pós-fixado ao CDIpercentual do CDI acumuladocaixa e reserva, com liquidez diária
Prefixadotaxa nominal travada na compraprazo casado, quando a taxa está alta
Indexado ao IPCAinflação mais taxa real fixaobjetivo longo, proteção de poder de compra

Os três erros que mais custam caro

Primeiro erro: comparar percentuais do CDI entre prazos diferentes. Um CDB de 110% do CDI com vencimento em cinco anos e liquidez apenas no fim não compete com um de 100% do CDI resgatável a qualquer momento. Liquidez tem preço, e ele aparece no percentual oferecido.

Segundo erro: ignorar o emissor. O percentual generoso costuma vir de banco menor, que paga mais porque capta com dificuldade. A cobertura do FGC é o limite prático da exposição a esse risco.

Terceiro erro: comparar produto tributável com isento pelo número bruto. Uma LCI de 90% do CDI é isenta de Imposto de Renda e pode entregar mais líquido que um CDB de 105% do CDI com prazo equivalente.

O limite: o que a garantia do FGC não cobre

O Fundo Garantidor de Créditos cobre até R$ 250 mil por CPF e por conglomerado financeiro, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Valores acima desse limite ficam expostos ao risco do emissor.

A cobertura inclui o principal mais o rendimento acumulado até a data da intervenção, e o pagamento não é imediato: depende do processo de liquidação e de o FGC dispor da lista de credores. Planejar caixa contando com esse dinheiro no dia seguinte é otimismo.

Há também o que a garantia não alcança: fundos de investimento, títulos públicos, debêntures, CRI, CRA e qualquer aplicação fora do rol de depósitos cobertos. Diversificar emissores dentro do limite por conglomerado é a defesa mais barata disponível.

As vizinhas: onde o CDB compete de fato

LCI e LCA. Isentas de Imposto de Renda para pessoa física, com carência mínima e cobertura do FGC. Para comparar, converta a taxa isenta em equivalente bruta: uma LCI de 90% do CDI equivale a um CDB perto de 106% do CDI para quem paga 15% de imposto.

Tesouro Selic. Risco soberano, liquidez diária e custódia de 0,20% ao ano, isenta até R$ 10 mil de estoque. É o piso de comparação de qualquer pós-fixado.

RDB. Recibo de depósito bancário, parecido com o CDB e sem possibilidade de negociação antes do vencimento na maior parte dos casos.

Poupança. Isenta, com rendimento creditado apenas no aniversário mensal e teto de 0,5% ao mês mais TR quando a Selic está acima de 8,5% ao ano.

Fundo DI. Carteira de títulos públicos empacotada num fundo, com taxa de administração e come-cotas em maio e novembro. Os dois custos precisam entrar na comparação com o percentual do CDI de um CDB de liquidez diária.

Debênture incentivada. Isenta de Imposto de Renda para pessoa física, com risco de crédito da empresa emissora e sem cobertura do FGC. O prêmio maior de taxa é o preço desse risco adicional.

Como medir o rendimento do seu CDB, em quatro passos

1. Comece pelo bruto anualizado. Traga o percentual do CDI para taxa anual usando o CDI acumulado do período, e não a Selic meta. 2. Desconte o imposto pela faixa de prazo do aporte, e some o IOF se a aplicação tiver menos de 30 dias. 3. Desconte a inflação do mesmo período, medida pelo IPCA divulgado pelo IBGE, usando divisão e não subtração. 4. Compare com as alternativas na mesma base líquida, incluindo LCI, Tesouro Selic e poupança, antes de decidir onde renovar.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre retorno nominal e retorno real do CDB?

O nominal é a taxa bruta anunciada pelo banco, sem descontos. O real é o que sobra depois de descontar a inflação do período, e mede se o poder de compra do investidor cresceu.

Como calcular o retorno real de uma aplicação?

Divida (1 + retorno nominal) por (1 + inflação do período) e desconte 1 do resultado. Com 10% de rendimento e 6% de inflação, o ganho real fica perto de 3,8%, e não nos 4% da subtração direta.

Um CDB de 100% do CDI é sempre um bom investimento?

Depende do nível de inflação no período, do prazo e da alíquota de Imposto de Renda no resgate. Um CDB de 100% do CDI pode entregar ganho real baixo ou negativo se a inflação estiver alta no mesmo intervalo.

Quanto o CDB paga de imposto?

Segue a tabela regressiva: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360, 17,5% de 361 a 720 e 15% acima de 720 dias, sempre sobre o rendimento. Nos 30 primeiros dias, há também IOF decrescente sobre o ganho.

O CDB tem garantia do FGC?

Sim, até R$ 250 mil por CPF e por conglomerado financeiro, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. A cobertura inclui principal e rendimento acumulado até a data da intervenção no banco.

O CDB rende todo dia ou só no vencimento?

O pós-fixado atrelado ao CDI acumula rendimento a cada dia útil, e o valor aparece no extrato mesmo sem resgate. O que muda entre um CDB de liquidez diária e outro com vencimento fixo é a possibilidade de sacar antes, e não a forma como o rendimento é calculado.

CDB ou LCI, qual rende mais?

Depende da comparação em base líquida. A LCI é isenta de Imposto de Renda para pessoa física, então um percentual menor do CDI pode entregar mais no fim. Uma LCI de 90% do CDI equivale a um CDB perto de 106% do CDI para quem pagaria 15% de imposto.

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