Princípio · Renda Fixa
Taxa do Tesouro Direto: os 3 Tipos e Como Escolher
Alocação de Ativos #037 · Leitura de 10 minutos

Neste artigo
- Os três tipos de Tesouro Direto
- Linha do tempo do Tesouro Direto
- A mecânica real: duration e reação ao juro
- O custo que sai do seu rendimento
- Os três erros que mais custam caro
- O limite: o que o Tesouro Direto não resolve
- As vizinhas: o que costumam confundir com o Tesouro Direto
- Como escolher, em quatro passos
- Perguntas frequentes
Três títulos do Tesouro Direto carregam o mesmo carimbo do governo federal, o mesmo risco de crédito, e ainda assim reagem de formas opostas quando a taxa Selic muda de direção. Um dispara de preço, outro quase não se mexe, o terceiro pode cair mesmo sendo do mesmo emissor. A taxa do Tesouro Direto que aparece na tela da corretora esconde essa diferença atrás de um nome só.
O Tesouro Direto reúne três famílias de título: o prefixado, o pós-fixado (o Tesouro Selic) e o IPCA+. Todos emitidos pelo Tesouro Nacional, todos listados lado a lado na mesma plataforma, todos com o mesmo risco soberano.
A diferença que importa mora na estrutura de remuneração. Cada tipo responde de um jeito diferente à mesma mudança de juros, e escolher sem entender essa mecânica é apostar sem saber em que se está apostando.
Os três tipos de Tesouro Direto
O Tesouro Selic, o pós-fixado, rende conforme a taxa básica de juros varia dia a dia. Se a Selic sobe, o rendimento sobe junto, quase sem oscilação de preço no meio do caminho. No jargão da dívida pública, é a Letra Financeira do Tesouro, a LFT.
O Tesouro Prefixado trava uma taxa fixa no momento da compra, por exemplo 11% ao ano, entregue até o vencimento independente do que acontecer com a Selic depois. É previsível se segurado até o fim, e o preço dele oscila bastante enquanto o papel está em carteira. Corresponde à Letra do Tesouro Nacional, a LTN, e, na versão que paga juros a cada semestre, à NTN-F.
O Tesouro IPCA+ paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa real fixa, algo como IPCA mais 6% ao ano. Protege o poder de compra por definição e ainda entrega um ganho real acima da inflação. É a NTN-B Principal, quando devolve tudo no vencimento, ou a NTN-B, quando paga cupom semestral.
Prefixado, pós-fixado e IPCA+ não são três sabores do mesmo produto. São três apostas diferentes sobre o rumo dos juros, embrulhadas no mesmo papel de presente.
Linha do tempo do Tesouro Direto
- 2002O programa é lançado em janeiro pelo Tesouro Nacional, em parceria com a companhia de custódia da bolsa, para vender títulos públicos direto à pessoa física, sem intermediação de fundo.
- 2015Duas mudanças no mesmo ano: a recompra passa a ser diária, com o dinheiro do resgate creditado no dia útil seguinte, e os nomes comerciais (Tesouro Selic, Tesouro Prefixado, Tesouro IPCA+) substituem as siglas LFT, LTN e NTN-B na plataforma.
- 2020Em agosto, a taxa de custódia deixa de ser cobrada sobre o estoque de Tesouro Selic até R$ 10 mil por investidor, o que torna o título mais competitivo para reserva de emergência.
- 2022Em janeiro, a taxa de custódia da B3 cai de 0,25% para 0,20% ao ano sobre o valor investido.
- 2023Chegam dois títulos com fluxo de renda desenhado para objetivos longos: o Tesouro RendA+, em janeiro, que paga renda mensal por 20 anos depois de uma data de conversão, e o Tesouro Educa+, em agosto, com fluxo de cinco anos.
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A mecânica real: duration e reação ao juro
O que separa o comportamento dos três títulos tem nome técnico: duration. É o prazo médio em que o dinheiro investido retorna ao bolso do investidor, e funciona como uma alavanca de sensibilidade ao juro.
Quanto maior a duration, mais o preço do título balança quando a taxa de mercado muda. O Tesouro Selic tem duration praticamente nula na prática. O Tesouro Prefixado de prazo longo tem duration alta. O IPCA+ carrega uma parcela prefixada embutida, a taxa real contratada, que reage como o prefixado puro.
A tabela abaixo ilustra a reação de cada título a uma alta de 2 pontos percentuais na Selic, de 11% para 13%:
| Título | Reação ao juro subir 2 pontos | Motivo |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | preço estável, passa a render mais | duration quase zero |
| Tesouro Prefixado (5 anos) | preço cai, perto de 7% se vendido antes | duration alta, taxa travada |
| Tesouro IPCA+ (2035) | preço cai no curto prazo, mas corrige a inflação | duration longa embutida |
O total investido não muda com essa oscilação, só o preço de revenda antes do vencimento. Quem segura o papel até o fim recebe exatamente a taxa combinada na compra, seja ela nominal ou real.
O custo que sai do seu rendimento
A taxa impressa na tela é bruta. Três descontos separam o número anunciado do dinheiro que chega à sua corretora, e é comum o investidor conhecer apenas o primeiro.
| Custo | Quanto | Quando incide |
|---|---|---|
| Custódia da B3 | 0,20% ao ano sobre o valor investido | semestral, com isenção para Tesouro Selic até R$ 10 mil |
| Imposto de Renda | de 22,5% a 15%, pela tabela regressiva | na venda, no vencimento ou no pagamento de cupom |
| IOF | de 96% a 0% sobre o rendimento | apenas nos 30 primeiros dias da aplicação |
A taxa de corretagem, cobrada por algumas instituições no passado, hoje é zerada pela maioria das corretoras, e o valor aparece na página do próprio Tesouro Direto, que publica a lista comparativa.
Some os três e o efeito no curto prazo fica grande: resgatar uma aplicação com 20 dias de vida entrega IOF alto, alíquota máxima de Imposto de Renda e custódia proporcional. O mesmo papel, carregado por três anos, paga 15% de imposto e nenhum IOF.
Os três erros que mais custam caro
Primeiro erro: concentrar tudo num tipo só, achando que é conservadorismo. Só prefixado é apostar que a Selic vai cair. Só pós-fixado é apostar que ela vai subir ou ficar alta. Só IPCA+ é apostar que a inflação vai corroer o poder de compra. Uma leitura do ciclo, uma ficha.
Segundo erro: comprar prazo longo com dinheiro de prazo curto. O risco do Tesouro não está no emissor, está no descasamento entre o vencimento do papel e a data em que o dinheiro vira necessidade.
Terceiro erro: vender no susto. A marcação a mercado vira prejuízo apenas na venda antecipada. Quem carrega até o fim recebe a taxa contratada, nominal no prefixado, real no IPCA+, diária no Tesouro Selic.
O limite: o que o Tesouro Direto não resolve
Risco soberano é o menor risco de crédito disponível em reais, e ainda assim não é ausência de risco. O Tesouro não tem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, porque a garantia é o próprio emissor da moeda.
A liquidez tem horário. A recompra é diária, mas a plataforma opera em janelas definidas, e fora do horário de negociação os preços exibidos são de referência. Quem depende do dinheiro no mesmo minuto precisa de caixa em outro lugar.
Existe também um teto de compra por investidor a cada mês, definido pelo programa, e vencimentos disponíveis que mudam ao longo do ano. Nem todo prazo que você quer está à venda no dia em que você procura.
O tamanho da entrada, por outro lado, quase não é obstáculo. A compra é fracionada em 1% de um título, o que coloca o piso na casa de algumas dezenas de reais e permite montar posição por aporte pequeno e recorrente. O valor exato de cada fração muda com o preço do papel no dia, e a plataforma mostra o número antes da confirmação da ordem.
Vale lembrar ainda que o Tesouro é uma classe só dentro da carteira. Ele resolve renda fixa em reais com risco soberano, e não substitui a fatia de renda variável, de fundo imobiliário ou de exposição em moeda forte que o objetivo de longo prazo costuma pedir.
As vizinhas: o que costumam confundir com o Tesouro Direto
CDB. Emissão bancária, com cobertura do FGC até o limite por CPF e instituição, e a mesma tabela regressiva de Imposto de Renda.
LCI e LCA. Isentas de Imposto de Renda para pessoa física, com prazo mínimo de carência e cobertura do FGC. A comparação com o Tesouro exige trazer o rendimento para a base líquida.
Fundo DI. Carteira de títulos públicos dentro de um fundo, com taxa de administração e come-cotas semestral, dois custos que a compra direta não tem.
Tesouro RendA+ e Educa+. Títulos do próprio programa, indexados ao IPCA, que pagam fluxo mensal em vez de devolver tudo no vencimento.
Como escolher, em quatro passos
1. Escreva a data do objetivo. Reserva de emergência, entrada de imóvel em três anos e aposentadoria em vinte pedem títulos diferentes. 2. Case o vencimento com essa data. Um IPCA+ 2035 combina com uma meta de 2035, nunca com um dinheiro que pode sair em dois anos. 3. Distribua entre os três tipos em vez de escolher um vencedor. Tesouro Selic no caixa, IPCA+ na âncora de longo prazo, prefixado como fatia tática e menor. 4. Confira a taxa vigente no dia da compra na plataforma do Tesouro Direto, porque ela muda diariamente com o mercado, e some os custos antes de comparar com um CDB ou uma LCI.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre Tesouro Selic, Prefixado e IPCA+?
O Tesouro Selic rende conforme a taxa básica de juros varia dia a dia. O Prefixado trava uma taxa fixa até o vencimento. O IPCA+ paga a inflação mais uma taxa real fixa. Cada um reage de um jeito diferente a uma mudança na Selic, por causa da duration embutida no título.
Qual Tesouro Direto rende mais?
Depende do cenário de juros e do prazo até o vencimento. Não existe um tipo que rende mais em qualquer situação, existe o tipo mais adequado para cada objetivo e prazo. Comparar a taxa vigente de cada um no momento da compra é o jeito confiável de decidir.
Quais são as taxas do Tesouro Direto?
A custódia da B3 é de 0,20% ao ano sobre o valor investido, com isenção para o estoque de Tesouro Selic até R$ 10 mil. Some a tabela regressiva de Imposto de Renda, de 22,5% a 15% conforme o prazo, e o IOF regressivo nos 30 primeiros dias. A corretagem hoje é zerada na maioria das instituições.
Dá para perder dinheiro no Tesouro Direto?
O risco de calote é o menor disponível em reais, porque o emissor é o governo federal. O risco real é de mercado: vender um Prefixado ou um IPCA+ antes do vencimento, num momento em que a taxa subiu, pode devolver menos do que foi aportado.
Em quanto tempo o dinheiro do resgate fica disponível?
A recompra é diária desde 2015, e o valor é creditado pela instituição no dia útil seguinte à solicitação, feita dentro do horário de negociação do programa.
Qual o valor mínimo para investir no Tesouro Direto?
A compra é fracionada: dá para adquirir a partir de 1% de um título, respeitado um piso da ordem de algumas dezenas de reais. O valor exato varia com o preço do papel no dia, e aparece na própria plataforma antes da confirmação.
O Tesouro Direto tem garantia do FGC?
Não. A cobertura do Fundo Garantidor de Créditos vale para emissões bancárias, como CDB, LCI e LCA. Nos títulos públicos, a garantia é o Tesouro Nacional, o mesmo emissor da moeda, considerado o menor risco de crédito do mercado brasileiro.
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