Princípio · Renda Fixa

Tesouro Selic: Como Funciona e Quando Vale a Pena

Alocação de Ativos #037 · Leitura de 10 minutos

Bússola de latão aberta ao lado de pilha curta de moedas douradas

O Tesouro Selic é o título mais parado dos três do Tesouro Direto: enquanto o Prefixado e o IPCA+ balançam de preço a cada notícia sobre juros, ele quase não se mexe. Essa previsibilidade tem uma explicação técnica precisa, e é ela que decide quando vale a pena usá-lo.

O Tesouro Selic é a versão pós-fixada do Tesouro Direto: seu rendimento acompanha a taxa Selic, o juro básico da economia, dia após dia. Não existe uma taxa travada no momento da compra, existe uma taxa que se move junto com a política monetária.

Essa característica faz dele o mais simples dos três tipos de entender, e o mais indicado para um papel específico dentro de uma carteira: proteger dinheiro que pode precisar ser usado a qualquer momento.

O que é o Tesouro Selic

Quando a Selic sobe, o rendimento do Tesouro Selic sobe junto, quase em tempo real. Quando cai, o rendimento cai. Não existe surpresa boa nem ruim embutida no papel, porque ele não faz nenhuma aposta sobre o futuro dos juros.

No jargão da dívida pública, o papel se chama Letra Financeira do Tesouro, a LFT. O nome comercial Tesouro Selic apareceu depois, quando o programa trocou as siglas técnicas por rótulos que o investidor comum entende.

Compare com o Tesouro Prefixado: lá, o investidor trava uma taxa hoje e aposta que ela vai se manter atraente no futuro. No Tesouro Selic essa aposta não existe, o rendimento simplesmente segue o que a taxa básica determinar a cada dia.

O Tesouro Selic não tenta prever o juro de amanhã. Ele entrega, hoje, o que a Selic de hoje paga. É a ausência de aposta que vira a maior vantagem dele.

Linha do tempo do Tesouro Selic

  1. Anos 1980As Letras Financeiras do Tesouro nascem no mercado de dívida pública brasileiro, remunerando pela taxa média diária das operações com títulos federais, num período de inflação alta em que travar taxa longa era inviável.
  2. 2002O papel entra na primeira leva do Tesouro Direto, em janeiro, e passa a ser vendido direto à pessoa física.
  3. 2015A recompra passa a ser diária e o nome comercial Tesouro Selic substitui a sigla LFT na plataforma.
  4. 2020Em março, no choque de mercado da pandemia, as LFT de vencimento mais longo foram negociadas com deságio, e a marcação a mercado do Tesouro Selic ficou negativa por alguns dias. Foi a demonstração prática de que estabilidade quase total não significa estabilidade absoluta.
  5. 2020Em agosto, a taxa de custódia deixa de ser cobrada sobre o estoque de Tesouro Selic até R$ 10 mil por investidor.
  6. 2022Em janeiro, a custódia da B3 cai de 0,25% para 0,20% ao ano sobre o que exceder esse limite isento.

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A mecânica real: duration quase zero

O que explica a estabilidade de preço do Tesouro Selic tem nome técnico: duration. É o prazo médio em que o dinheiro investido retorna ao investidor, e funciona como uma alavanca da sensibilidade do preço à mudança de juros.

Quanto maior a duration de um título, mais o preço dele oscila quando a taxa de mercado muda. O Tesouro Selic tem duration praticamente nula, porque sua remuneração já acompanha a taxa de mercado a cada dia, sem descasamento entre o que o papel paga e o que o mercado oferece.

A tabela abaixo compara a reação de cada título do Tesouro Direto a uma alta de 2 pontos percentuais na Selic:

TítuloReação ao juro subir 2 pontosMotivo
Tesouro Selicpreço estável, passa a render maisduration quase zero
Tesouro Prefixado (5 anos)preço cai, perto de 7% se vendido antesduration alta, taxa travada
Tesouro IPCA+ (2035)preço cai no curto prazo, mas corrige a inflaçãoduration longa embutida
Sensibilidade ao juro por tipo de título (ilustrativo)
Tesouro Selic~0% de oscilação
Tesouro Prefixado 5 anos~7% de oscilação
Tesouro IPCA+ 2035~11% de oscilação

Essa quase ausência de oscilação é o que torna o Tesouro Selic o título mais previsível de resgatar a qualquer momento, sem risco relevante de vender por um preço abaixo do que foi aportado.

Há um detalhe da cotação que confunde quem compra pela primeira vez. Na plataforma, o papel aparece como Selic mais uma parcela pequena, algo como Selic mais 0,04% ao ano. Essa parcela é o ágio ou deságio do momento: quando o mercado exige um prêmio para carregar o papel, o número aparece positivo e a compra sai um pouco mais barata; quando a demanda aperta, ele pode ficar negativo. Em qualquer dos casos, a variação é de centésimos, e o rendimento principal continua sendo a taxa básica acumulada dia após dia.

O acúmulo, por sinal, é feito em dias úteis. O rendimento entra a cada pregão, e fim de semana e feriado não somam juros próprios, apenas entram no cálculo do dia útil seguinte. Por esse motivo dois meses com o mesmo número de dias corridos podem render um pouco diferente.

O custo que decide se ele bate a poupança

O rendimento bruto do Tesouro Selic acompanha a taxa básica, e três descontos separam esse bruto do valor que sobra para o investidor.

DescontoQuantoDetalhe
Custódia da B30,20% ao anoisenta sobre o estoque de até R$ 10 mil
Imposto de Renda22,5% a 15%tabela regressiva, cobrada só no resgate
IOF96% a 0% do rendimentoapenas nos 30 primeiros dias

A comparação com a poupança sai desse cálculo, e o resultado muda com o patamar da Selic. Com a meta acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial e trava nesse teto, enquanto o Tesouro Selic continua acompanhando a alta. Com a meta em 8,5% ou abaixo, a poupança passa a render 70% da Selic mais a TR, e a distância entre os dois se estreita, porque a poupança é isenta de Imposto de Renda.

Um detalhe da poupança pesa mais do que a fórmula: o rendimento é creditado no aniversário mensal do depósito. Sacar um dia antes joga fora o mês inteiro de juros. No Tesouro Selic o rendimento é diário, e sai proporcional ao tempo em que o dinheiro ficou aplicado.

Os três erros que mais custam caro

Primeiro erro: usar o Tesouro Selic para todo objetivo. Ele é o mais estável de preço, e não o mais rentável no longo prazo. Num ciclo de juros em queda, rende cada vez menos, enquanto um prefixado ou um IPCA+ comprado antes da queda mantém a taxa travada mais alta.

Segundo erro: manter reserva de emergência abaixo do limite isento em outro produto. Até R$ 10 mil de estoque, o Tesouro Selic não paga custódia, vantagem que o fundo DI com taxa de administração não consegue igualar.

Terceiro erro: resgatar antes de 30 dias sem calcular o IOF. No primeiro mês, o imposto sobre operações financeiras come uma fatia grande do rendimento, e cai a zero apenas no trigésimo dia.

O limite: onde a estabilidade deixa de ser absoluta

O preço do Tesouro Selic acompanha o valor nominal atualizado, e o mercado pode negociá-lo com pequeno ágio ou deságio. Em condições normais o desvio é desprezível. Em estresse agudo de liquidez, como o de março de 2020, os vencimentos mais longos abriram deságio e a marcação ficou negativa por alguns dias.

A defesa é escolher o vencimento mais curto disponível para o dinheiro de emergência. Quanto mais perto o vencimento, menor o espaço para deságio, mesmo em cenário de estresse.

O título também não protege poder de compra por definição. Ele paga o juro básico, e se a inflação correr perto da Selic, o ganho real fica próximo de zero depois do Imposto de Renda. Proteção contra inflação é trabalho do IPCA+, não dele.

Por fim, o resgate é creditado no dia útil seguinte à solicitação, dentro do horário de negociação. Para uma emergência que precisa de dinheiro no mesmo minuto, alguma parcela em conta remunerada com liquidez imediata ainda faz sentido.

As vizinhas: o que costumam confundir com o Tesouro Selic

Fundo DI. Carteira de títulos públicos com taxa de administração e come-cotas semestral, dois custos que a compra direta não tem.

CDB de liquidez diária. Emissão bancária com cobertura do FGC até o limite por CPF e instituição, costuma pagar um percentual do CDI e depende do risco do banco emissor.

Poupança. Isenta de Imposto de Renda, com rendimento creditado apenas no aniversário mensal e teto de 0,5% ao mês mais TR quando a Selic está acima de 8,5%.

Conta remunerada. Liquidez imediata, útil para a parcela da reserva que precisa sair no mesmo instante, com rendimento em geral menor.

LCI e LCA. Isentas de Imposto de Renda para pessoa física, com carência mínima definida em norma. A isenção atrai, e a falta de liquidez no prazo inicial as tira da função de reserva de emergência.

Como usar o Tesouro Selic, em quatro passos

1. Dimensione a reserva em meses de custo de vida, não em valor redondo. É ela que define quanto vai para o título. 2. Escolha o vencimento mais curto disponível na plataforma, que é o menos exposto a deságio em cenário de estresse. 3. Respeite os 30 primeiros dias. Aportes que podem ser resgatados em poucas semanas pagam IOF alto, e cabem melhor em conta remunerada. 4. Revise quando a Selic virar de direção. Em ciclo de queda prolongada, parte do dinheiro de longo prazo tende a render mais em IPCA+ ou prefixado do que parada no pós-fixado.

Perguntas frequentes

O Tesouro Selic rende mais que a poupança?

Na maior parte dos cenários de Selic, sim, sobretudo com a taxa básica acima de 8,5% ao ano, quando a poupança trava em 0,5% ao mês mais TR. A comparação final depende do prazo, porque o Tesouro Selic paga Imposto de Renda e a poupança é isenta.

O Tesouro Selic pode dar prejuízo?

É o mais protegido contra oscilação de preço entre os três títulos, e ainda assim pode ficar negativo por alguns dias em estresse agudo de liquidez, como aconteceu com os vencimentos longos em março de 2020. No curto prazo, o IOF dos 30 primeiros dias é o desconto que mais reduz o resultado.

Tesouro Selic é bom para reserva de emergência?

É o uso mais indicado para ele. A duration quase nula significa preço estável, o rendimento é diário e o estoque de até R$ 10 mil fica isento da taxa de custódia da B3.

Quanto custa investir no Tesouro Selic?

A custódia da B3 é de 0,20% ao ano sobre o que exceder R$ 10 mil de estoque nesse título. Some o Imposto de Renda pela tabela regressiva, de 22,5% a 15% conforme o prazo, e o IOF regressivo apenas nos 30 primeiros dias.

Qual a diferença entre Tesouro Selic e LFT?

Nenhuma. LFT é a sigla técnica da Letra Financeira do Tesouro, e Tesouro Selic é o nome comercial adotado na plataforma a partir de 2015 para o mesmo papel.

Vale a pena ter Tesouro Selic no longo prazo?

Como caixa e reserva, sim. Como âncora de aposentadoria, ele tende a perder para o Tesouro IPCA+, que garante ganho acima da inflação por contrato, enquanto o pós-fixado apenas acompanha o juro básico de cada momento.

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