Princípio · Renda Fixa

Tesouro IPCA+: o Título Que Protege da Inflação

Alocação de Ativos #037 · Leitura de 10 minutos

Pequena planta brotando de vaso de latão ao lado de moedas douradas

Existe um título do governo federal que promete algo que nenhum outro título comum de renda fixa garante por definição: ganho real acima da inflação, não importa para onde o IPCA caminhar. Chama-se Tesouro IPCA+, e o "mais" no nome é o que faz toda a diferença.

O Tesouro IPCA+ é um título híbrido: paga a variação do IPCA, o índice oficial de inflação do país, mais uma taxa real fixa definida no momento da compra, por exemplo IPCA mais 6% ao ano.

Essa estrutura o torna diferente dos outros dois tipos do Tesouro Direto. O Prefixado trava uma taxa nominal, sem relação direta com a inflação futura. O Tesouro Selic acompanha o juro básico, também sem vínculo com o IPCA. O IPCA+ é o único que corrige o principal pela inflação.

O que é o Tesouro IPCA+

Na prática, o valor investido é corrigido pela inflação acumulada, e por cima dessa correção incide a taxa real contratada. Se a inflação sobe, o principal corrigido sobe junto, preservando o poder de compra do capital.

O papel existe em duas versões na plataforma. O Tesouro IPCA+ puro, a NTN-B Principal, devolve tudo no vencimento, sem pagamento intermediário. O Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais, a NTN-B, paga cupom a cada seis meses, calculado sobre o valor corrigido, à taxa de 6% ao ano estabelecida na emissão.

O Tesouro IPCA+ não aposta que a inflação vai ficar baixa nem alta. Ele garante que, seja qual for o resultado, o poder de compra do capital sai protegido, com um ganho real por cima.

Linha do tempo do título indexado à inflação

  1. 1980O IBGE passa a calcular o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, com a cesta de consumo das famílias de renda mais baixa a moderada nas principais regiões metropolitanas.
  2. 1999O Decreto 3.088 institui o regime de metas de inflação, e o IPCA vira o índice oficial que a política monetária persegue.
  3. 2002O Tesouro Direto começa a vender títulos indexados à inflação direto à pessoa física, em janeiro, na leva de lançamento do programa.
  4. 2015Os nomes comerciais substituem as siglas na plataforma: NTN-B Principal vira Tesouro IPCA+, e NTN-B vira Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais.
  5. 2023Chega o Tesouro RendA+, indexado ao IPCA, que em vez de devolver tudo no vencimento paga renda mensal por 20 anos depois da data de conversão. No mesmo ano surge o Tesouro Educa+, com fluxo de cinco anos.

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A mecânica real: a parcela prefixada escondida dentro do IPCA+

O IPCA+ carrega uma característica que surpreende muita gente: apesar de proteger contra a inflação, ele também se comporta como um prefixado, e essa parcela reage ao juro real de mercado.

A reação acontece porque a taxa real fixa contratada, o "mais" do nome, funciona como um prefixado embutido. Quando a taxa real de mercado sobe, a taxa real do papel antigo fica menos atraente, e o preço do título cai para se ajustar, mesmo com o principal protegido pela inflação.

Quanto mais longo o vencimento, maior essa sensibilidade, porque a duration cresce com o prazo. Um IPCA+ com vencimento em 2035 reage de forma bem mais forte a uma mudança na taxa real do que um IPCA+ com vencimento em 2027.

TítuloReação ao juro real subirMotivo
Tesouro Selicpraticamente nenhumaduration quase zero
Tesouro IPCA+ curto (ex: 2027)queda leve de preçoduration moderada
Tesouro IPCA+ longo (ex: 2035)queda mais acentuada de preçoduration alta, taxa real embutida
Sensibilidade do IPCA+ ao prazo (ilustrativo)
Tesouro Selic~0% de oscilação
IPCA+ curto (2027)~4% de oscilação
IPCA+ longo (2035)~11% de oscilação

A versão com juros semestrais tem duration menor que a versão pura de mesmo vencimento, porque devolve parte do dinheiro antes. Ela oscila menos de preço, e em troca antecipa imposto a cada cupom, tema da seção seguinte.

Como a correção pela inflação é calculada

O principal é atualizado pelo IPCA acumulado desde a data-base do título, e a atualização usa o índice de referência divulgado pelo IBGE com defasagem. Entre o dia 15 de um mês e o dia 15 do mês seguinte, o cálculo usa a projeção diária do índice, o pro rata, e depois ajusta quando o número oficial sai.

O efeito prático é uma pequena defasagem entre a inflação que você sente no supermercado e a correção que aparece no extrato. Em cenário de inflação estável, o desvio é irrelevante. Em aceleração ou desaceleração forte, a correção do mês chega com atraso.

Há ainda o ponto que mais reduz o ganho real do investidor: o Imposto de Renda incide sobre o rendimento nominal, o que inclui a correção pela inflação. Numa aplicação de IPCA mais 6%, com inflação de 5% no período, o imposto de 15% morde os 11% nominais, e não apenas os 6% reais. O ganho real líquido fica perto de 4,3%, não dos 6% contratados.

O que a tabela mostraValor
Taxa contratadaIPCA + 6% ao ano
Inflação do período5%
Rendimento nominalperto de 11%
IR de 15% sobre o nominalperto de 1,7 ponto
Ganho real líquido aproximadoperto de 4,3%

O que uma taxa real alta está dizendo

A taxa real oferecida pelo IPCA+ muda todo dia, e ao longo da última década ela oscilou dentro de uma faixa ampla, passando por períodos de 3% ao ano em momentos de calma e por picos acima de 6% em episódios de estresse fiscal ou de aperto monetário.

O padrão é contraintuitivo para quem chega agora. Taxa real alta na tela costuma coincidir com preço baixo dos papéis longos, ou seja, com prejuízo na marcação de quem comprou antes. É o mesmo movimento visto de dois lados: o preço cai porque a taxa exigida subiu.

Para quem tem dinheiro novo e horizonte longo, essas janelas são o melhor momento de compra que o título oferece, porque travam ganho real elevado por uma ou duas décadas. Para quem já está posicionado, são o momento de não vender.

A régua prática é comparar a taxa real do dia com a faixa dos últimos anos, disponível no histórico da própria plataforma do Tesouro Direto, em vez de julgar o número no vácuo.

O risco de reinvestimento e a resposta do RendA+

Um título que devolve tudo numa data só transfere um problema para o investidor: onde aplicar o montante no dia do vencimento. Se a taxa real de mercado estiver baixa naquele momento, a renda que o capital vai gerar dali em diante cai junto.

O Tesouro RendA+ ataca esse ponto ao substituir o pagamento único por 240 parcelas mensais corrigidas pelo IPCA, ao longo de 20 anos. O investidor trava hoje a taxa real que vai remunerar todo o período de recebimento, sem depender do mercado da data de conversão.

O preço dessa proteção é a rigidez. O resgate antecipado existe, com carência definida no programa, e a marcação a mercado de um papel tão longo é ainda mais sensível à taxa real.

Os três erros que mais custam caro

Primeiro erro: vender no susto. O preço do IPCA+ longo cai quando a taxa real de mercado sobe, e a queda é marcação a mercado, não perda realizada. Quem segura até o vencimento recebe a inflação do período mais a taxa real contratada.

Segundo erro: casar objetivo curto com vencimento longo. Um IPCA+ 2045 comprado para um gasto de 2028 transfere a decisão de venda para o humor do mercado naquele ano.

Terceiro erro: escolher a versão com cupom sem precisar de renda. Quem está acumulando patrimônio paga imposto a cada semestre e reinveste o valor líquido, em vez de deixar tudo compondo dentro do papel até o fim.

O limite: o que o IPCA+ não protege

O título protege contra o IPCA, e não contra a sua inflação pessoal. A cesta do índice reflete o consumo médio das famílias pesquisadas, e quem gasta muito com mensalidade escolar, plano de saúde ou aluguel pode enfrentar uma alta maior que a do índice oficial.

A proteção também é bruta, e o Imposto de Renda incide sobre o ganho nominal, como a seção anterior mostrou. Em inflação alta, a mordida sobre o ganho real cresce, mesmo com a alíquota mínima de 15%.

E o papel não é imune a risco de mercado no meio do caminho. Duration alta significa oscilação real de preço, capaz de assustar quem confundiu proteção de poder de compra com estabilidade de cotação.

As vizinhas: o que costumam confundir com o Tesouro IPCA+

Tesouro RendA+ e Educa+. Também indexados ao IPCA, com fluxo de renda mensal em vez de pagamento único no vencimento, desenhados para aposentadoria e para custeio de estudo.

IPCA+ com Juros Semestrais. Mesmo indexador, com cupom de 6% ao ano pago a cada seis meses, útil para quem já vive de renda e indesejado para quem acumula.

Debênture incentivada indexada ao IPCA. Isenta de Imposto de Renda para pessoa física, com risco de crédito da empresa emissora, bem acima do risco soberano.

CDB e LCI atrelados ao IPCA. Emissão bancária com cobertura do FGC dentro do limite, taxa real definida pelo emissor e liquidez em geral menor que a do título público.

Como usar o Tesouro IPCA+, em quatro passos

1. Escolha o vencimento pela data do objetivo, e não pela taxa mais alta da tela. Casar as duas datas elimina o risco de venda antecipada. 2. Prefira a versão sem cupom na fase de acumulação, para o rendimento compor dentro do papel e o imposto ficar para o fim. 3. Leia a taxa real como prêmio. Uma taxa real alta costuma aparecer em momentos de estresse, quando o preço do papel longo já caiu. 4. Meça o resultado líquido. Desconte o Imposto de Renda sobre o ganho nominal e a taxa de custódia de 0,20% ao ano antes de comparar com alternativas isentas.

Perguntas frequentes

O que significa o "mais" no Tesouro IPCA+?

É a taxa real fixa contratada no momento da compra, somada à variação do IPCA. Uma oferta de IPCA mais 6% ao ano significa que o título paga a inflação do período mais 6% de ganho real acima dela.

Vale a pena vender o Tesouro IPCA+ antes do vencimento?

Só em situações específicas, porque o preço de mercado reflete a marcação e pode estar abaixo do valor investido. Segurar até o vencimento garante receber a inflação do período mais a taxa real contratada na compra.

Tesouro IPCA+ é melhor que Tesouro Prefixado?

Os dois fazem apostas diferentes. O Prefixado garante uma taxa nominal fixa, o IPCA+ garante ganho real acima da inflação. Em cenários de inflação alta e imprevisível, o IPCA+ tende a proteger melhor o poder de compra.

Qual a diferença entre Tesouro IPCA+ e Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais?

O primeiro devolve principal corrigido e juros no vencimento. O segundo paga cupom a cada seis meses, à taxa de 6% ao ano sobre o valor corrigido, e antecipa Imposto de Renda a cada pagamento.

O Imposto de Renda incide sobre a correção da inflação?

Sim. A alíquota da tabela regressiva incide sobre o rendimento nominal, que inclui a correção pelo IPCA. É o motivo de o ganho real líquido ficar abaixo da taxa real contratada.

Tesouro IPCA+ serve para reserva de emergência?

Não é o uso indicado. A duration alta faz o preço oscilar, e o resgate antecipado pode devolver menos do que foi aportado. Para reserva, o Tesouro Selic cumpre melhor a função.

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